quarta-feira, 27 de junho de 2012

Capítulo 1 – O inesperado


Já há alguns anos que John tem vindo a ter todas as noites sempre o mesmo sonho e ele começa a sentir que o sonho é a sua verdadeira vida. O que ele sonha é basicamente um fragmento de quem ele foi na vida que teve antes desta, o mais importante é de ele se lembrar do seu verdadeiro amor: Mei. Essencialmente, ele lembra-se de estar sempre com a Mei e de que ele costumava fazer muitos desenhos dela. Para além disso, também se lembra do momento em que morreu. A sua vida no mundo real, não era nada de especial e ele não tinha uma razão de vida. Então ele começou a pensar que ele só conseguia ser feliz nos seus sonhos. Esta ideia de querer viver nos sonhos apareceu, porque todos os dias ele tinha a mesma rotina: pintar; sem qualquer alegria ou prazer…ele não tinha sentimentos bons. Uma parte dele já estava morta. Depois ele decidiu tomar vários comprimidos para dormir para que pudesse dormir o máximo de tempo possível, com a finalidade de sonhar. Depois de meses a tomar tantos comprimidos, o coração dele ficava cada vez mais fraco e começou a falhar, por isso depois de algum tempo, quase que teve um ataque de coração. Os médicos descobriram a causa do quase ataque cardíaco e por pouco que o internavam. Contudo, o John apenas foi enviado para uma psicóloga que o ajudara já há sete meses.

Hoje é a sua última sessão de tratamento.
Psicóloga – Como sabe, esta pode ser a nossa última sessão, por isso comecemos por me dizer como se sentiu ao longo desta semana.
John – Senti-me normal… Quer dizer… Eu não tive ‘’o sonho’’.
Psicóloga – Isso é um grande progresso, porque você não tem tido ‘’esse sonho’’ já há três meses. Por isso, acho que talvez seja tempo de poder voltar à sua vida normalmente. Eu acredito de que será capaz de conseguir ter uma vida normal. Não concorda?
John – Sim. Acho que depois deste tempo todo, voltei a ser eu mesmo.
Psicóloga – É verdade! E é isso que você se deve lembrar todos os dias: ‘’ser eu mesmo’’. Penso que está preparado para aceitar que os sonhos são apenas uma experiência de imaginação do nosso subconsciente, durante o período de sono. Percebe o que estou a dizer?
John – Sim, claro! Eu sei que tenho vindo a agir como uma pessoa maluca, mas eu percebo que ‘’o sonho’’ não era real e eu não vou voltar a acreditar num mundo que faz parte da minha imaginação. - Diz de forma duvidosa.
Psicóloga – Esse é o passo que eu tenho vindo à espera que tomasse. Vejo que já consegue aceitar a verdade. Sinto-me orgulhosa do seu progresso. E, assim sendo, esta é possivelmente a nossa última sessão. Não precisa de vir novamente.
John – Está a dizer a verdade? Então, eu estou ‘’curado’’? – Diz com um grande sorriso.
Psicóloga – Sim. Está ‘‘curado’’! – Ela dá uma gargalhada. Mas John, se eventualmente tiver ‘’o sonho’’ outra vez, peço-lhe que me ligue para ter a certeza de que fica bem, está bem?
John – Claro! Eu farei isso.
Psicóloga – Então, eu vou já tratar dos seus papéis em conforme as consultas terminarão. Adeus e cuide-se.
John – Adeus!
John, farto de estar naquele péssimo lugar, corre para o carro e vai para casa. Durante o caminho farta-se de se rir e sente-se completamente aliviado. No final do dia, John deita-se no sofá a pensar na forma como ele deve colocar os seus quadros para fazer uma exposição perfeita. Sem se aperceber ele adormece…
(Numa pequena montanha, com vista para o mar, ao pôr do sol.)
Li pega nas mãos de Mei: Mei, eu amo-te tanto que eu quero ficar contigo para sempre.
Mei sorri e diz: Li, tu sabes que eu te amo com todas as minhas forças e se fosse possível eu ficaria contigo para sempre, até que o mundo acabasse.
Li olha a Mei nos olhos e confessa: Eu quero que saibas que desde o primeiro momento que te vi, eu sempre acreditei que estávamos destinados a viver juntos para sempre. O meu amor por ti será sempre infinito.
Mei fica emocionada e aproxima os seus lábios aos de Li e sente que ele está a tremer muito, e diz: - Li, que se passa? Estás a tremer tanto…
Li não é capaz de lhe responder e cai para trás.

 John acorda e sente o seu coração a bater muito forte, quase a sufocar e suspira: - Mei!...

John estava surpreendido, porque ele nunca pensara que teria aquele sonho outra vez. Toma banho e esfrega várias vezes a cara para se certificar que está acordado. Fica confuso, pois não sabe o que há-de fazer. Ainda pensou em telefonar à psicóloga, mas ele não queria ir para aquele sítio novamente. De repente olha para o relógio e apercebe-se de que já está atrasado para a exposição, então sai o mais rápido que pode. Passados 20 minutos ele chega, vê o Tom e dá-lhe um aperto de mão:

John – Bom dia Tom, como é que está a minha exposição?

Tom – Bom dia! O que aconteceu para teres chegado atrasado?

John – Adormeci, mais nada. E vejo que já está tudo preparado!

Tom – Sim, eu já organizei todo o teu trabalho e espero que esteja do teu agrado, porque eu não vou fazer nenhuma alteração! – Diz a rir-se.

John – Não, está tudo bem! Onde é que puseste a ‘’Mei’’?

Tom – Tem calma, está ali ao fundo. Eu coloquei-a no fim para ficar centrada com o corredor, porque é mesmo o melhor que já fizeste.

John – Eu sei, obrigado Tom.

Tom – Tu ainda tens sonhos com ela?

John – Já não. Mas eram só sonhos…

Tom – Exato! Não percas o contacto com a realidade, porque sabes perfeitamente o que aconteceu.

John – Sim, eu sei.

Tom – Eu não te quero voltar a ver todo desorientado, percebes? Da última vez quase que morreste. Ficavas em casa, não falavas com ninguém… Por isso vive a vida real e não os sonhos, está bem?

John – Sim eu percebo… isso foi antes, agora já estou bem. – diz John duvidoso.

Tom – Olha, vai começar, já estão a abrir as portas. Isto vai ficar cheio de gente…

Jane costumava trabalhar num bar de Jazz, mas há já três meses que foi despedida e desde então ainda não conseguiu arranjar trabalho. Os seus pais têm um emprego muito bom e ainda têm um pequeno café. Dinheiro é coisa que não lhes falta e de dois em dois meses enviam uma certa quantia a Jane para que ela tenha o que quer que seja necessário para poder viver sozinha. Quando ela saiu de casa os pais estavam sempre a discutir e até pensaram em divorciar-se, mas ninguém se dispôs a avançar com o divórcio e até agora ainda vivem juntos.

Depois de tomar o pequeno-almoço, Jane decide ir dar uma volta para ver se aparecia algum anúncio de trabalho e no caminho depara-se com a sua amiga Molly.

Jane – Olá Molly, como estás?

Molly – Olá, há tanto tempo que não te via… Eu estou bem e tu?

Jane – Eu estou fastástica.

Molly conhecia Jane desde o liceu e notou logo que havia qualquer coisa de errado.

Molly – Para de mentir! Eu já te conheço! Posso não te ter visto este tempo todo, mas tu continuas a mesma.

Jane – Oh, já te disse que estou bem!

Molly – Podes mentir aos outros, mas não consegues mentir-me a mim. Tu estás desempregada outra vez…

Jane – Sim…

Molly – Tu sabes que te posso ajudar. Eu posso arranjar-te emprego…

Jane – …Não! Já devias saber que eu não gosto desse tipo de coisas. Eu quero ser feliz com aquilo que sei fazer.

Molly – Sim, eu percebo-te, mas arranjar emprego como cantora não está fácil.

Jane – Eu sei.

Molly – Precisas de dinheiro?

Jane – Não. Os meus pais enviam-me de vez em quando uns trocos.

Molly – Está bem. Olha, eu tenho de ir já estou atrasada. Se precisares de alguma coisa liga-me! Vemo-nos depois, Adeus!

Jane – Adeus!

Jane continua a caminhar pelas ruas e de repente vê um anúncio com uma foto do melhor trabalho de John: ‘’Mei’’. Ela fica perplexa a olhar para a figura que é tal e qual ela. Ela lê o pequeno texto que está abaixo da imagem e apercebe-se de que é uma exposição de quadros. Olha para a morada onde se realizará a exposição e corre em direção ao metro.

Quando chega ao local, entra e olha em todas as direções à procura da imagem. Finalmente, vê o quadro no final do corredor e corre na sua direção. Ela fica imóvel a observar as semelhanças e chega a perguntar a ela própria: - Então ‘’o sonho’’ é real?

Tom vê-a a prestar tanta atenção para o quadro que decide ir-lhe perguntar se precisa de alguma coisa.

Tom – Olhe desculpe, mas a senhora está bem?

Jane olha para trás, ligeiramente pálida e desta vez é Tom quem fica perplexo e até um pouco assustado. Ela nota na sua reação e, apavorada com o sucedido, foge o mais rápido possível dali. Tom preocupado, corre atrás dela. Jane está completamente desorientada e atravessa a rua com todos os carros a passarem a alta velocidade. Ela teve sorte em não ter sido atropelada, mas já não se pode dizer o mesmo de Tom. Ele estava tão preocupado com ela que nem se apercebe dos carros à sua volta. Jane olha para trás e vê que Tom foi atropelado. John estava dentro do edifício e ouve gritos vindos do exterior. Sai, olha em frente e vê a Mei. Jane, chocada com o sucedido, olha e vê o Li do outro lado da rua. Ambos dão um passo em frente, mas de repente ouve-se um berro: - Ele ainda está vivo!

Então John olha para o lado e vê o seu amigo deitado na estrada, cheio de ferimentos. Aterrorizado, ele não sabe o que fazer…olha novamente em frente e continua a ver a Mei mas nesse mesmo instante passa um camião e ela subitamente desaparece. Jane, mal ouviu que Tom ainda estava vivo, fugiu de todo aquele cenário. John perde as forças e ajoelha-se em lágrimas ao ver o seu amigo no meio de tanta confusão e desgraça. Rapidamente chega uma ambulância que leva o corpo de Tom e John acompanha-o até ao hospital. Dentro da ambulância, o médico repara que Tom ainda tem pulsação e John ao ouvir aquilo fica alegre em saber que o seu amigo não morreu. Assim que saíram da ambulância Tom foi logo encaminhado para um bloco operatório e John, sentindo-se inútil, limitou-se a ficar na sala de espera. Entretanto chega a namorada de Tom.

John – Olá Susan.

Susan – O que aconteceu? Aonde está o Tom?

John abraça Susan e explica-lhe:

John – Tem calma! Os médicos levaram-no para ser operado.

Susan – Operado?! Mas o que é que se passou?

John – Eu não sei como aconteceu, mas o Tom foi atropelado. Quando cheguei ao pé dele já era tarde demais, ele já não estava consciente…

Susan (interrompendo John) – Mas porquê? Como é que isto foi acontecer?

John – Não te preocupes, ele vai ficar bem.

John chegou a sentir-se um pouco cruel consigo mesmo e com a Susan ao ter dito que Tom iria ficar bem, até porque ele não sabia o que poderia vir a acontecer… Abraça Susan para a tentar acalmar, pois ela simplesmente não conseguia parar de chorar. A espera foi longa. Passadas cinco horas aparece um médico com notícias de Tom.

Médico – Como sabem o Tom tinha vários ferimentos graves e tivemos de operá-lo. Conseguimos reanimá-lo e por enquanto ele está bem, mas ele precisa de descansar e demos-lhe um sedativo muito forte por causa das dores.

Susan – Podemos ir vê-lo?

Médico – Sim, claro. Mas peço-lhe que sejam breves.

Susan – Está bem.

Médico – É por aqui, acompanhem-me.


 Susan ao ver Tom cheio de tubos e de ligaduras quase desmaiou. John não se atreveu a dizer nada pois não queria causar mais dor a Susan e então deixou-a com os pensamentos dela. Poucos minutos depois, o médico pede-lhes para saírem e ficam na sala de espera. John senta-se e fica com Susan, ambos calados.

Jane andou desaparecida pelas ruas para inutilmente tentar esquecer o que se tinha passado.  Era quase noite quando chegou a casa. Ela ainda estava chocada com todas aquelas imagens que passavam sucessivamente à sua frente, como se estivesse a acontecer tudo outra vez. Ela deita-se na cama mas na tentativa de dormir, nem sequer consegue fechar os olhos. Naquele momento na sua cabeça, havia um nome que ela mantinha: Li. Ela não tinha a certeza do que tinha visto, porque podia ter sido um truque da sua cabeça. Ela já estava quase completamente convencida que ‘’o sonho’’ era real, mas não sabia se o Li era verdadeiro. Ver o Li, naquele dia, com todo aquele caos à sua volta…não passava de uma coincidência, ou pior, de uma ilusão.

Personagens

Li / John – Li era um pintor chinês de 20 anos que vivia em Xangai e tinha como única paixão os desenhos e as pinturas. Mas isso foi até ter conhecido Mei, pois ela ‘’roubou-lhe’’ a paixão que ele sentia pela arte. O facto de eles se amarem tanto fez com que estivessem sempre juntos, o que originou uma grande coleção de retratos da Mei. Li morre aos 25 anos com um ataque de coração. Após alguns séculos, Li volta a viver, mas desta vez no corpo de John. John é um pintor rico com 33 anos que vive em Los Angeles. Ele é chinês e mudou-se para a América com 18 anos de idade. Vivia em Hong Kong na China e aos 13 anos os seus pais morreram num trágico acidente de carro.

John – Cor dos olhos: castanhos-escuros; Cor do cabelo: castanho-escuro; Altura: 1m,78cm.

Mei/Jane – Mei vivia em Xangai, pois foi abandonada quando ainda era criança e foi criada por uma família chinesa. Ela passava o seu tempo a cantar e a dançar, e foi no final de uma tarde que enquanto cantava, Li se aproximou dela, encantado com a sua bela voz. Mei, depois de alguns séculos (assim como Li) vive outra vez mas no corpo de Jane. Jane é uma cantora americana com 25 anos que vive sozinha em Los Angeles. Ela antes morava com os seus pais em Washington, mas decidiu deixá-los, porque estava farta de viver com uma família tão problemática. Então aos 23 anos decidiu começar uma nova vida, na qual pudesse viver livre.

Jane – Cor dos olhos: castanhos-escuros; Cor do cabelo: castanho-claro comprido; Altura: 1m,68cm.

Tom – É o melhor amigo de John e ajuda-o na sua ‘’vida financeira’’; Cor dos olhos: azuis; Cor do cabelo: castanho; Altura: 1m,80cm.

Molly – É a melhor amiga de Jane; Cor dos olhos: verdes; Cor do cabelo: castanho; Altura: 1m,70cm.

Susan – Mulher de Tom e amiga de John; Cor dos olhos: castanhos; Cor do cabelo: loiro; Altura: 1m,72cm.